GTec - Newsletter - 21.07

Newsletter quinzenal do Grupo de Estudos em Filosofia e História da Técnica

Olá, pessoal, esta é a mais nova edição da newsletter do GTec, na qual falaremos sobre Fanon e fanatismos, raça e genoma, modernidade e tecnologia, além de armas sonoras, energia nuclear, humanidades digitais, delírios tecnológicos e o que mais nos faz humanos.

Divulguem, compartilhem e assinem a newsletter através do botão abaixo!

Próximo encontro

Nosso próximo encontro será na quarta-feira, 28/07, às 18h. O evento será criado logo mais no Facebook para quem quiser confirmar presença e o link da reunião estará disponível no site da APPH logo antes do encontro.

Em nossa próxima reunião, voltaremos à leitura do primeiro volume de Technics and Time, de Bernard Stiegler. Seguindo o livro, leremos a “Introdução” da primeira parte do livro, “The Invention of the Human”, e o capítulo 1, “Theories of Technical Evolution”, ambos disponíveis no seguinte link.

Ainda que o primeiro capítulo da obra seja uma revisão da filosofia sobre a técnica, com destaque para Gilbert Simondon e Bertrand Gille, o desenvolvimento geral que Stiegler inicia é condizente com as principais conclusões do nosso último encontro, as quais todas e todos estão convidados para compartilhar: a pergunta pela técnica é também a pergunta pelo humano. 

Nesse sentido, um dos propósitos do nosso encontro será ler Stiegler a partir de Fanon e dos movimentos que, reconhecendo o papel do pensamento racial sobre a história moderna, particularizam o humano. De que maneira a reflexão sobre a raça pode levar ao “universal” do humano? De que maneira a técnica particulariza a experiência moderna? Essas são algumas das questões que colocamos ao texto de Stiegler.

O livro inteiro está disponível na pasta do GTec no Google Drive

Canais do GTec

Só para lembrar que, além da newsletter, temos outra ferramenta de comunicação: um canal no Discord no qual compartilhamos referências, impressões e leituras entre os encontros. Para quem quiser participar, é só entrar neste link e se inscrever na plataforma. 

“Por que Fanon? Por que agora?”

Como destacado ao longo do último encontro, existem muitos Frantz Fanon. É um pensador e revolucionário cujas obras motivaram leituras diversas, como os estudos culturais, além de servirem para movimentos de emancipação nacional e/ou defesa da justiça racial, como os Panteras Negras nos Estados Unidos e a atuação dos grupos revolucionários no Sul Global nos anos 1960. 

Quanto a isso, no Brasil, Deivison Mendes Faustino tem abordado o histórico dos "fanonismos" no Brasil, desde a leitura de Os Condenados da Terra até hoje. Sua tese de doutoramento, defendida na UFScar, está disponível no seguinte link, e tem como título as perguntas que enquadram esta seção da nossa newsletter. Para quem quiser apoiar o pesquisador, a tese foi publicada em livro com o título A disputa em torno de Frantz Fanon: a teoria e a política dos fanonismos contemporâneos e, também de sua autoria, recomendamos a obra Frantz Fanon: um revolucionário particularmente negro. São duas leituras essenciais para compreender o pensamento e o legado de Fanon no país.

Uma obra em pré-lançamento que compila textos até então inéditos e/ou não atribuídos a Fanon é Frantz Fanon a revolução argelina, organizado por Walter Günther e Rodrigues Lippold. O livro será lançado no final de setembro pela editora Ciências Revolucionárias e está disponível em pré-venda no seguinte link.

Junto dessas obras, que exploram o pensamento de Fanon, principalmente sua importância para o movimento negro, também acrescentamos a questão surgida no último encontro: talvez a leitura de Fanon importe não apenas para o pensamento racial, mas como uma forma de engajar as questões que, até então, haviam sido abordadas como “sem cor” e “sem gênero” pela filosofia ocidental, como a própria noção de humanidade. Nesse sentido, a obra de Fanon abre-se tanto para sua inserção junto às propostas de releitura da filosofia a partir da raça e das questões de gênero, mas também como um diálogo direto com a tradição filosófica mais ampla.

Para nossos interesses, por exemplo, qual é a relação possível entre Fanon e Simondon, outro autor para quem a pergunta da técnica implica a questão do humano?

Raça e tecnologia

Já aproveitamos também para destacar que, no encontro subsequente ao próximo, leremos alguns capítulos, ainda a definir, da obra Race after Technology, de Ruha Benjamin. O livro já está disponível na pasta do GTec no Google Drive.

Junto disso, vale a pena conferir a matéria da Folha de São Paulo sobre o impacto da análise genética de brasileiros e o questionamento dos pressupostos de raça. Ainda que a matéria tenha seus problemas, é interessante como divulga ao público amplo a dinâmica racial e de gênero da colonização portuguesa no Brasil, ao mesmo tempo que toca no ponto de partida de Paul Gilroy em Entre Campos, pois uma vez que o sequenciamento genético invalida a noção de raça, por que o pensamento racial continua prevalente em nossa sociedade? 

Um diálogo com essa questão e uma apropriação positiva dessas tecnologias de sequenciamento genético está neste texto do sociólogo Serge Katembera publicado no The Intercept. É uma leitura interessante que relaciona tecnologia, raça, história e herança genética. 

Curso novo na APPH

Também aproveitamos para divulgar que a APPH será a casa ao longo do mês de agosto do curso Introdução ao pensamento de Yuk Hui, ministrado por Zé Antônio Magalhães. Trata-se de uma iniciativa pioneira que aborda a obra de um dos mais importantes autores contemporâneos e cuja obra está sendo cada vez mais lida no país. O curso propõe uma introdução geral ao pensamento de Hui, mapeando suas obras e conceitos-chave, como cosmotécnica e tecnodiversidade, além de contextualizar a obra de Hui junto à tradição filosófica ocidental, à fenomenologia e à filosofia da técnica, entre outras correntes do pensamento.

Fiquem de olho no site da APPH para mais informações!

Outras referências

Ainda na sequência dessas questões, vale a pena conferir a breve discussão proposta por Nina da Hora a respeito do papel de cientistas negros e a figura do inventor negro. É um texto curto, mas importante que foi publicado em novembro do ano passado na MIT Technology Review (obrigado, André Araújo, pela referência!).

Um pouco relacionado a isso, também ressaltamos a publicação recente de The Digital Black Atlantic, obra editada por Roopika Risam e Kelly Baker que propõe uma série de leituras das humanidades digitais a partir do espaço do Atlântico negro. O destaque do livro é a relação entre tecnologia, memória e arquivo. Para quem tiver interesse pela obra, ela está disponível na íntegra na plataforma Manifold Scholar.

Sobre as humanidades digitais, também disponível num sistema de pague-o-quanto-quiser, Alternative Historiographies of the Digital Humanities, organizada por Dorothy Kim e Adeline Koh para a Punctum Books, é uma coletânea que critica as maneiras como a história das humanidades digitais é contada e quais suas consequências para as pesquisas futuras a partir da perspectiva do Sul Global. Segue o link do livro.

E, no Brasil, quem tem abordado a relação entre humanidades digitais, bancos de dados e o estudo da população escravizada no Brasil Colônia é Aldair Rodrigues, da Unicamp. Segue o link para sua contribuição mais recente sobre o assunto. 

Para novas formas de publicação acadêmica que tratam da relação entre raça e modernidade, fica a dica do site Black Haunts the Anthropocene, que acompanhou uma palestra de Marisa Parham feita em 2014. Ainda que não seja mais atualizado, é uma maneira de questionar os pressupostos da nossa atuação na academia (obrigado, Gabriel Gonzaga, pela referência!).

Parham é diretora do grupo African American Digital Humanities, AADHum, na sigla em inglês, o qual vale a pena seguir no Twitter para saber de suas atividades mais recentes. 

No site Africa Is A Country, Marta Mboka Tveit publicou uma interessante revisão do crescimento do gênero da ficção especulativa no continente africano. Para a autora, o crescimento do gênero é uma forma de pensar a modernidade a partir da África, e não apenas como inserção nas histórias europeias. 

Essa semana marcou a divulgação de mais um escândalo de vazamento de dados, agora com graves implicações para os direitos humanos. Um consórcio de veículos de imprensa revelou que dezessete governos contrataram o software Pegasus, da empresa israelense NSO, para espionar ativistas de direitos humanos, opositores políticos e, no geral, pessoas sem vínculo com terrorismo. Ao contrário do que afirma a NSO, segundo a qual o aplicativo seria utilizado apenas nessas ocasiões, foi identificado que mais de 50 mil pessoas foram investigadas por seus governos. O Pegasus é um spyware que tem acesso total aos telefones celulares que ele infecta, fazendo cópia de mensagens, ligações e conseguindo até mesmo ativar o microfone dos aparelhos à revelia dos usuários.

Para quem quiser entender mais sobre o software, a plataforma Digital Violence está lançando aos poucos todos os dados reunidos pelo consórcio de veículos de imprensa. Vale lembrar que, no Brasil, Carlos Bolsonaro tentou adquirir o software e deixá-lo sob comando do Palácio do Planalto, motivando mais uma disputa institucional entre o governo federal e suas instituições, principalmente a Abin, órgão de inteligência brasileiro. 

Dois livros em pré-lançamento prometem ser leituras fundamentais sobre o assunto. Pela Ubu, Giselle Beiguelman publicará Políticas da imagem: vigilância e resistência na dadosfera, enquanto a Contracorrente lançará Privacidade e poder, de Carissa Véliz. Lançado em 2020 no original em inglês, Véliz destaca a necessidade de instituir uma prática com os dados online que não esteja sujeita à apropriação pelo que Soshana Zuboff muito bem nomeou “capitalismo de vigilância”. É o nexo entre poder, vigilância e capital que precisa ser questionado.

Também sobre o assunto, vale a pena destacar o curso “Bem-viver na internet”, que aborda práticas de autocuidado e formação de comunidades seguras no ambiente online visando principalmente combater a vigilância de dados, o ciberbullyng e a disseminação de discursos de ódio. 

Tratando de assunto completamente diferente, o podcast Interdependence, de Holly Herndon e Mat Dryhurst entrevistou a ativista britânica e divulgadora científica Zion Lights para tratar de “justiça energética” e do potencial da energia nuclear para combater a catástrofe climática atual. Vale a pena observar como Lights combina a defesa da energia nuclear e o ativismo ambiental numa proposta ousada e instigante.

Já o podcast Primeiro Contato iniciou uma série de doze episódios sobre a história da computação no Brasil, com destaque para as tentativas de desenvolvimento de computadores e redes nacionais desde o final dos anos 1970 até o início dos anos 1990. O primeiro episódio já está disponível e pode ser escutado, entre outras plataformas, no Spotify.

Para encerrar, duas referências rápidas: o livro The Technical Delusion, de Jeffrey Sconce, mencionado por nosso colega Pedro Drumond, está disponível na pasta do GTec no Google Drive e, graças a nosso colega Rafael Moscardi Pedroso, trazemos a palestra “The Human: From Subversion to Compulsion”, de Ray Brassier, no qual o autor dialoga - e critica - a bibliografia sobre o pós-humano por não prestar a devida atenção ao que o antecede: o humano.

Imagem de satélite mostrando o impacto do avanço da extração de óleo de palma sobre as terras dayak, grupo indígena de Bornéu, no Sudeste Asiático. A imagem é parte de uma investigação conduzida pelo grupo inglês Forensic Architecture e é parte da exposição Investigative Commons, na Haus der Kulturen der Del (HKW), em Berlim.

Essa foi a nova edição da newsletter do GTec. Compartilhe, divulgue e se inscreva para receber nossas novidades. A newsletter é enviada quinzenalmente.

Lembrando que o GTec é uma atividade apoiada pela Associação de Pesquisas e Práticas em Humanidades, com sede em Porto Alegre e ramificações por todos os lugares que a internet alcança. É uma organização sem fins lucrativos, mantida apenas pelo trabalho dos colaboradores e pelas atividades realizadas nela. Por esse motivo, se você puder, apoie a APPH através da conta do apoia.se/apph